" Bird of prey flying high, take me on your flight "

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Conversas de café


- Olá! Então, por aqui?
- Bom dia! Epá, fui levar o miúdo à praia, que ele foi com os amigos, e decidi passar por aqui.
- Fizeste tu muito bem! Então e novidades, conta lá?
- Olha, tudo na mesma como a lesma, já dizia o outro. Viste ontem o telejornal?
- Vi, pois!
- Não estava nada à espera...
- Do quê, do discurso do Papa? Esse é sempre a mesma coisa... "A televisão e a Internet são muito más, vamos lá ter consciência ambiental"... Não que não tenha razão, mas o homem não varia!
- Não estou a falar nisso!
- Ai não? Então é da nova dos Estados Unidos, que querem fazer as pazes com o Irão? Esses americanos é que sabem: começam o conflito e depois vão acabá-lo quando percebem que não dá em nada e que as pessoas já começam a ver aquilo com maus olhos... Não que o Bush possa fazer muito mais, em Novembro vai de carrinho...
- Ó homem, também não é isso!
- Então é da diminuição das pensões? Já não era de esperar? Há crise, há crise, mas eles continuam lá nas suas férias e com as suas mansões, e a malta que aperte o cinto!
- Epá, estou a falar do Aimar, que veio para o Benfica! Não viste?
- Ahhh, esse! Já podias ter dito! Tu viste como o foram buscar ao aeroporto, parecia um Presidente da República? Só não tinha mais gente porque era de noite! 6 milhões de euros... É crise, é!...
- Quero lá saber, só sei que ele ainda nos vai valer o título, digo-te eu! Isso é que me interessa, quero eu lá saber do Irão, do Papa ou do raio que o parta! Tu escreve o que te digo: este Aimar foi a melhor coisa que aconteceu ao Benfica, vais ver! Estava a ver que não conseguíam trazê-lo, a coisa estava feia, mas lá deram a volta. Ah grande Rui Costa! Eu até achava que o Carlos Mart...
- Olha, desculpa lá, mas tenho de ir andando. Ainda tenho de fazer umas coisas.
- Então mas quem é que achas que vai ser titular? Eu digo-te que é o Aimar...

domingo, 13 de julho de 2008

Eça

Todos são do mesmo barro

Uma carta (A Filha do Capitão - Reflexão III)

Uma mulher aguarda com o coração aos saltos notícias do marido, um mero soldado numa guerra distante, mas ao mesmo tempo tão próxima.
Poucos meses antes a família estava reunida. Agora, tinha um filho nos braços que ainda não conhecera o pai e outro que começava a perceber que tão cedo não veria a tão adorada figura que vira partir.
Havia semanas que não sabia nada e nas notícias davam a imagem de perfeita harmonia; um pequeno aperto no peito, no entanto, teimava em aparecer.
"Triiiim"! Alguém tocava à campainha. Quem seria, aquela hora? As crianças dormiam um sono profundo e não se ouvia qualquer som a não ser o dos seus passos no soalho de madeira.
"Boa noite. Peço desculpa por perturbá-la tão tarde, mas acabei de chegar e queria falar consigo pessoalmente. Susana Monteiro?", disse um jovem alto, vestido com uma farda militar e mala na mão quando abriu a porta. Confirmou quem era e o jovem continuou: "O meu nome é Matias e servi com o seu marido"
"Aconteceu alguma coisa?". Susana não precisava perguntar, mas queria ter a certeza; as lágrimas começaram a querer brotar.
"O seu marido ajudou-me imenso enquanto estive com ele e por isso quis ser eu a entregar-lhe isto".
Abriu o casaco e tirou do bolso uma carta endereçada a Susana, a quem entregou.
Enquanto a abria, o coração da mulher pulava como nunca antes; a folha branca foi tirada do envelope, lida, e deixada cair no chão; o mundo de Susana desmoronara!
Não eram dados grandes pormenores, apenas que Sérgio perdera a vida em circunstâncias que não poderiam ser reveladas mas que vivera os seus últimos momentos a lutar pelo seu país; era um herói!
O jovem soldado tentava falar com ela, talvez consola-la, mas ela não ouvia. Sentada no chão, o mundo ruíra a seus pés, não ouvia nada, a cabeça girava e girava, tudo estava turvo e sem qualquer forma aos seus olhos.
Pensou nos filhos. O que lhes diria? Que o pai era um herói e por isso não podia estar mais com eles? Que grande consolação!... Perdera o marido, o amigo, o pai dos seus filhos, o homem da sua vida, mas ao menos perdera-o para a pátria!
Lembrou-se das palavras de Sérgio quando a guerra dera início, quando a possibilidade daquela carta que jazia agora no chão chegar estava ainda longe. Ele dissera: "Por que luta o Homem para atingir algo? É incrível como as guerras começam por causa das ambições de um homem mas acabam por morrer milhares de inocentes, os pequenos! Já imaginaste como uma pessoa deve sofrer numa guerra? Não só está longe da família e luta uma batalha que não é sua, como está rodeado pela morte; a ideia, o medo, o destino... a morte está sempre presente, como podem ter um bom dia? Qualquer momento pode ser o último, mas quem combate é apenas um inocente que arrisca a sua vida por outro sem nada receber em troca. Talvez sair dali vivo seja a maior recompensa. Se um dia fosse eu, e Deus queira que não, apenas desejava poder chegar a casa e ver o teu sorriso, ouvir a gargalhada do nosso filho e poder pegar no meu colo este bebé que tão bem tens protegido. Não precisava de mais, era o ser mais rico de sempre!". Beijou-a.
Mas Deus quis. Enquanto os responsáveis ficavam em casa, a população lutava; é o rumo das coisas.
O marido nunca pediu muito. Mesmo assim, não conseguiu receber a sua maior recompensa. O seu destino fico selado numa carta agora caída no chão.