" Bird of prey flying high, take me on your flight "

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ignorância perdida

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão !
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso
! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção ! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve !
Entrai por mim dentro ! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai !


Fernando Pessoa

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Sim, e ter em aquela independência passada, da despreocupação com aquilo que é certo ou errado. A pura ignorância, o desconhcimento da realidade que tantas vezes dói e pesa numa vida tão curta para haver algo a doer ou a pesar de tal jeito.
Vontade de apenas cantar, livre e alegremente, rodando e girando por entre contos e imaginários tais,que fantasias não bastassem para preencher o caminho.

Ser criança, ou apenas poder esquecer a realidade por uns momentos, e ser conscientemente inconsciente.

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