
Na continuação da saga José Rodrigues dos Santos, depois de ler "A Filha do Capitão", que tanto me deliciou, passei para "A Ilha das Trevas". Em férias tenho sempre um livro a acompanhar-me, ou, como acontece normalmente, mais do que um.
Não tivemos uma boa aproximação, eu e este romance, o primeiro do jornalista. De início estava a achá-lo bastante "chato", se me permitirem dizê-lo; uma discrição imensa dos acontecimentos que levaram à invasão indonésia em Timor-Leste. Não tinha pachorra! No entanto, dei-lhe uma segunda oportunidade e acabei por descobrir que há mais do que o puro relato de acontecimentos nestas páginas.
Foi durante a sua leitura que me deparei com uma realidade que, apesar de me ser conhecida, sempre tive a pequena esperança que não passasse de uma pequena fantasia, um pesadelo que nos ocultavam para não nos revoltarmos; não é bem assim.
Em pleno massacre em Timor-Leste, em 1992, com tropas indonésias a disparar e a matar civis apenas porque se manifestaram contra o governo, a Comunidade Europeia estava disposta a fazer um acordo com os países do Sudeste Asiático (onde se insere a Indonésia) que apenas lhe daria a oportunidade de ganhar milhões com a venda e compra de produtos desses países. O nosso governo opôs-se; estavam a fazer um acordo com um país que violava os direitos humanos descaradamente (se esta justificação era sentida ou não, o que interessa é que estavam contra)!
Fiquei chocada ao aperceber-me que realmente existem pessoas que fazem de tudo para ganhar dinheiro, mesmo que para isso tenham de vender armas a alguém que sabem estar a matar milhares de inocentes depois de defender esses mesmos direitos violados! Realmente, não é nada de novo. Todos nós temos noção que estes episódios acontecem, não foi este o primeiro nem será o último.
Este é mesmo um mundo capitalista, de interesses e, acima de tudo, hipócrita!
É de coragem enfrentar quem nos aparece superior, quem se mostra poderoso e sem medo. Somos uma ínfima gota perante um oceano inteiro, mas podemos vergá-lo até ser apenas mais uma gota (ambiciono um dia escrever um livro apenas com metáforas e possíveis aplicações e significados).
E assim espalho a minha indignação em corações alheios, se é que alguém lê estes devaneios. Devo ser mesmo uma pessoa infeliz com o que tem... Pobres a mal agradecidos, estes revolucionários!

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