Uma crónica de Luis Miranda para o semanário "SOL". E não acrescento mais; o texto fala por si: o reflexo de uma sociedade com a mania das grandezas.
" VIP, vem do inglês e é uma sigla. Significa Virgil Islands Party (um partido das Ilhas Virgem Britânicas), Vasoactive Intestinal Peptide (uma hormona contendo 28 resíduos de aminoácidos produzida no pâncreas e hipotálamo, garante a Wikipedia) e Very Important Person (literalmente, pessoa muito importante).
Para esta última definição – e só esta – há uma tenda no Rock in Rio. Em Portugal, e neste festival, acrescente-se uma descrição à sigla VIP: gente bronzeada o ano inteiro com uma atracção particular (e inexplicável) por salgadinhos à borla, que pagou 200 euros por um dia de concertos– o equivalente a dois bilhetes de época para acompanhar a equipa de futebol do Leixões Sport Clube, na época passada.
Dia cinco, quarta data do festival e noite mais barulhenta e menos familiar do Rock in Rio. No Parque da Bela Vista as t-shirt de Metallica faziam parte da farda oficial dos fãs, gente que tem, ou já teve, cabelo comprido. O lado negro da força concentrou-se em peso junto ao Palco Mundo desde muito cedo.
Da varanda da tenda VIP (a organização chama-lhe ‘Área VIP’, mas vamos ser honestos) vê-se o rio Tejo, as torres do Instituto Superior Técnico, os prédios verdes da Praça do Areeiro e a habitação social (Le Corbusier+Taveira?) do eixo Bela Vista-Chelas. Há ainda uma estrutura metálica que, depois de consultar o mapa (item n.º 1) descobrimos ser o Palco Mundo – montado àquela distância parece a invenção de um grupo de oftalmologistas sádicos.
A música que sai do Palco Mundo, quando chega à varanda de 200m2 sobre o parque, é mais cacofonia que estereofonia.
Portugueses
sem filtro
Os Moonspell começaram a tocar há hora em que se serviam os primeiros salgados. A banda de Fernando Ribeiro, uma das mais exportadas (e exportáveis) do panorama nacional, apresentou Night Eternal para uma plateia de seguidores.
Dedicaram uma música aos que se deixam levar «pelo encanto da lua» numa tarde solarenga de Junho, e revisitaram temas antigos de um som que pouco tem a ver com a hora em que foi tocado. O lirismo e intensidade da banda (ópio, unicórnios e fim do mundo) pouco ou nada terão a ver com a lógica ‘bora aí ser todos felizes e amigos’ do resto do festival.
Mas o quinteto aguentou a pose. Enquanto alguns gritavam por Mefistófeles de punhos erguidos no ar – ver ‘Mephisto’, do álbum Irreligious – outros abanavam patos de borracha azuis. ‘Alma Mater’, do primeiro disco Wolfheart, fechou o concerto com o público a cantar como a selecção portuguesa de râguebi antes dos jogos do Mundial.
Fernando Ribeiro, amante de chás e praticante de pilates, não deixou escapar um recado à senhora do primeiro dia, Amy Winehouse: «As bandas de metal não vêm para aqui fazer figuras». Louvável o profissionalismo metalúrgico.
Contagem de metaleiros na tenda VIP: seis.
Antes, no Palco Sunset, Tim (Xutos e Pontapés) e Jorge Palma foram Simon & Garfunkel por uma hora. Tocaram as músicas de um e outro, numa mistura de camaradagem com homenagem e foram dos únicos momentos cantados do dia sem guitarras em distorção. Resultou bem, encaixou na nostalgia de final de dia, mesmo quando Tim insistia em sacar as notas da parte errada da garganta.
Beethoven
e champô
O Palco Mundo viria a receber o metal sinfónico dos Apocalyptica. Os violoncelistas finlandeses que quiseram deixar de ser betinhos e quando decidiram tocar covers de Metallica em 1996. Apresentam agora um reportório vasto onde interpretam temas próprios, revisitam a banda a que prestaram tributo e aceleram temas clássicos – aconteceu com a Sinfonia n.º5 de Beethoven.
Parecem ser mais uma curiosidade que um fenómeno a seguir com interesse. Olhando para o palco, parecia que se estava a assistir a um anúncio de Pantene de longa duração, com os violoncelistas a rodopiarem as suas generosas gadelhas do princípio ao fim do concerto. Uma sessão de metal para bibliotecários: excessivo, burocrático, repetitivo e chato.
Contagem de metaleiros na tenda VIP: zero. Na mesma altura em que a cerveja acabou, líquido que só voltaria a jorrar dali a uma hora. A indignação veio de um jovem de camisa aos quadrados e pullover amarelo cruzado sobre as costas: «Você acha isto normal?». Segurem-no.
É uma espécie de ATL. Os pais vão ao Rock in Rio com os filhos e deixam-nos na tenda VIP. Estão descansados. Ali, naquela lona gigante montada na colina do parque, estão a salvo dos perigos do mundo exterior – apesar do bar aberto. Quando os mais pequenos exigem uma vista mais aproximada do palco, tendo para isso de sair recinto abaixo, está lá a mãe para os obrigar a vestir o casaco de malha: «não tens frio agora mas vais ter mais tarde».
Metal e talheres
de plástico
O metal mais pesado dos californianos Machine Head começava a soar quando os responsáveis pelo catering da tenda VIP destaparam as terrinas de metal. As atenções viraram-se então para os pequenos pratos de plástico (do tamanho de uma mão).
Era escolher entre a massa sem sabor, a carne escorregadia (vaca, porco, frango?), o bacalhau incógnito sob um molho de tomate e os legumes salteados. Tudo servido em doses pequenas para comer com um conjunto de talheres que inexplicavelmente não incluía facas. As entradas, servidas em copos de plástico e pequenas jarras, serviam mais para constrangir - «como é que isto se come?» - do que para matar a fome.
O som que chegava do concerto da banda de trash speed metal era o equivalente a uma turbina de avião durante a descolagem.
Enquanto alguns lutavam com talheres de plástico, outros tentavam sobreviver no mosh pit mais agressivo de todo o festival. Impressionou até os membros da banda que não se fartaram de elogiar o público – a empatia durou do princípio ao fim num concerto sem pontos baixos.
Os Metallica tiveram na noite de ontem um momento de glória. Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, como são conhecidos, têm uma legião de fãs mais que fiel, um reportório gigantesco e um conjunto de músicos irrepreensíveis. As canções, só elas, eram suficientes para conquistar o público. Mas houve ainda a entrega da banda de James Hetfield e companhia. O concerto começou com intensidade e adornos pirotécnicos, solos de guitarra e um baterista que parecia querer tocar no meio do público. Ouviram-se clássicos como ‘Enter Sandman’, ‘One’ e ‘Nothing Else Matters’, temas cantados em uníssono pelos mais de 50 mil presentes naquela noite.
Na tenda VIP restava pouca gente interessada a olhar para o palco. «Isto é horrível, não percebo nada do que o senhor está a dizer», comentava uma adolescente desconsolada. "
Epa, a voz do Senhor Hetfield até que se percebe muito bem... Deve ser da distância a que se encontrava a rapariga, coitada.
Pelos vistos, os croquetes são os nossos melhores amigos.
" Bird of prey flying high, take me on your flight "
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário