" Bird of prey flying high, take me on your flight "

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Grades verdes

Sento-me no chão, à janela, na esperança de ver algo que me desperte a necessidade de anotar o pensamento.
Na verdade, não vejo nada de diferente: estou rodeada de casas habitadas e inabitadas, uns carros ocasionais, os tão necessários postes de alta tensão e lá ao fundo, mesmo ao fundo, um monte verdejante (que mesmo assim não deixa de ter sido atacado pela construção humana), tudo isto entre barras verdes; o gradeamento da minha varanda.
E apesar dos sons - os risos lá fora, os cães que ladram, os motores, os pássaros - parecerem distantes, sei que basta levantar-me e sair pela porta para me juntar a eles.
Não deixa de se aparentar com uma cela, em que eu sou a prisioneira, aqui, sentada, sem saber quem sou e porque estou aqui.
Gostava de poder voar, mas não tenho asas, nem penas ou cera para fazer umas. Fisicamente, sei que não fui feita para voar.

Observo melhor. Alguém na casa em frente se movimenta, talvez uma criança.
Agora escuto; fecho os olhos e escuto. Não há silêncio. Será o vento, ou mais um carro? Não, é o vento. A Natureza fala, está livre; e eu com ela.
Não existe silêncio absoluto; haverá sempre o som do vento, das folhas a esvoaçar; haverá sempre a respiração de alguém, o roçar do corpo em si mesmo. Não é possível existir silêncio absoluto, porque a Natureza está viva, e a vida cria o som.
Enquanto observo, continuo a olhar por entre verdes grades, mas agora consigo ver mais além. Vejo claramente os cães que ladram para lá da minha visão e os pássaros que voando cantam, tal como vejo as flores com quem o vento dança, escondidas pelas casas ou pela distância que nos separa. Vejo as casas por dentro, enquanto uma família fala, a mãe que avisa o filho, os amigos que se encontram.
Alguém trabalha, agora; oiço o martelar, vejo-o por detrás daquela casa. O trabalho não pára.
Não me encontro numa prisão, nem a minha visão é prisioneira daquilo que os olhos a deixam ver, por isso levantei-me.
Livrei-me das grades verdes, e consigo ver o mesmo que via quando as tinha entre mim e a paisagem.
Posso estar presa a um destino incerto, mas isso não me impede de ver novos caminhos, talvez por eles seguir.

Vejo alguém a partir - fecharam a porta de casa, as janelas, e entraram nos carros. Sigo-os pela estrada fora, com a música ligada, talvez a conversar, enquanto chegam a casa; a distância mantem-nos longe do olhar.
Ao fechar os olhos, cheira-me a comida. É hora do jantar.
Talvez seja a minha hora de jantar; ao fechar a janela e virar costas, vou continuar a conseguir ver tudo o que agora vejo e não vejo.
É o poder da mente, com ou sem grades verdes.

Ainda agora consigo ouvir a Natureza. Mesmo com a janela fechada.

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