" Bird of prey flying high, take me on your flight "

segunda-feira, 22 de junho de 2009

" Being John Malkovich " (1999) - uma reflexão


De: Spike Jonze
Argumento: Charlie Kaufman

O marionetista Craig Schwartz (John Cusack), ao deparar-se com a realidade de que tem de arranjar emprego, vê a sua vida ainda mais triste - não consegue que ninguém valorize a sua arte e a sua mulher, Lotte (Cameron Diaz), leva para casa os animais exóticos com os quais trabalha.
É no novo emprego que Craig conhece Maxine (Catherine Keener), por quem se apaixona, e descobre um portal escondido que leva quem quer que nele entre... até ao interior da cabeça do actor John Malkovich!

Não me concentrarei no filme em si, mas em toda a temática apresentada.
A ideia de sermos alguém completamente diferente, já de si, retoma uma série de reflexões e questões.
Juntando isso com a possibilidade de estarmos a ser controlados por algo que nos é exterior, e temos ingredientes de sobra para alguns momentos de actividade cerebral.

A insatisfação do ser em relação ao que é manifesta-se, com certeza, pelo menos uma vez que seja, em toda uma vida; muito provavelmente mais do que uma vez.
Mas e se essa insatisfação cessar momentaneamente, quando nos encontramos pessoas diferentes? Não voltará?
Existindo a possibilidade de ser outro alguém, o meu comportamento seria, inevitavelmente, distinto; sou uma pessoa distinta, as minhas acções serão,portanto, distintas.
No entanto, apelando à natureza inerente ao ser humano ser insatisfeito naturalmente, não acabaria por ser também essa nova existência, mais cedo ou mais tarde, motivo de insatisfação? E, se tal é o caso, não seria essa insatisfação realidade numa nova existência?
Qual é, então, o sentido de querer ser alguém diferente, se, de uma maneira ou de outra, sairemos sempre insatisfeitos com o resultado? Pode, com certeza, resultar durante algum tempo, mas uma camisola também é muito gira quando a compramos até nos cansarmos dela (comparação infundada? Talvez, porque não escolhemos quem somos, mas podemos construí-lo. O princípio é o mesmo).
O mesmo acontece com a busca incansável de respostas a questões que permanecem um autêntico mistério.


Mas, e se formos realmente comandados por qualquer outra alma que em nós está contida? O que escrevo talvez não seja fruto da minha reflexão, mas sim da reflexão de outrém.
Inevitável sentir um sentimento de violação para com o nosso corpo e mente.
Mas estando em nós contida essa alma forasteira, não fará parte de nós, tal como nós somos parte dela?
Inserida na nossa mente, acumulará em si qualquer pensamento, ideal ou sentimento que liga esse corpo a esta alma; duas almas se juntam.
Poderei então afirmar que algo exterior me controla, como se de uma marioneta se tratásse? Até que ponto não terá a minha alma, habitante original do meu corpo, forte influencia da alma forasteira?
Se o agente controlador me controla, faz parte de mim; eu sou também agente controlador. Não sou total marioneta em mãos alheias.



(qualquer pergunta vinda da simples visualização de um filme que chega a ser cómico, mas que é mais filosófico do que o imaginado).

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