Irónico Salazar gostar de cravos, e de os ter nas suas jarras. No final, foram os cravos o símbolo do fim de todo um regime que implementou, do fim da sua ambição de vida.
Custa ver António de Oliveira Salazar como ser humano, como ser humano capaz de amar. Apenas custa porque minha família foi criada numa altura em que o seu regime ainda persistia, e sei que não foram poucas as provações por que passaram devido a toda uma política de repressão, mas sei também que muitos foram os que sofreram ainda mais.
Ao longo do tempo, um sentimento de quase... pena. A sua ambição (tal como a de Adolf Hitler, acredito eu) teve mais motivos do que a pura vontade de ter o poder. No entanto, não se pode negar a sua personalidade autoritária, mais tarde aplicada a todo um país, em relação às pessoas de si mais próximas.
Atrás de si, das suas vivências, os sofrimentos, ou mesmo humilhações, que tantos passaram. E, impedido de chegar onde queria nos campos mais pessoais, bastava-lhe apenas lutar pelo desejo de deitar abaixo a República e de estar à frente de um regime Absoluto.
Quem podia ser ele com aquelas botas...
Tinham, estas pessoas, estes repressores de sociedades inteiras, em certos casos até assassinos, directa ou indirectamente, um lado humano, mas que nunca foi dado a ver. Como poderia alcançar o respeito dos seus súbditos se estes soubessem que também era um ser sensível, que chora, que ama, que deseja, que ri, que anseia por um toque, como o mais impotente dos homens? Que medo poderia ele incutir se soubessem que sentia dor como o camponês, que sentia o coração apertado como o jovem apaixonado pela primeira vez, com a racionalidade trocada?
Devido aos seus demónios pessoais, muitos sofreram. E o seu coração, como ficou ele? A sua consciência?...

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